Lar, enfim

Livres da maldição e da influência do pecado, os remidos viverão em um ambiente perfeito

O Horizonte Perdido, de James Hilton,[1] descreve o acidente de um avião que, sem combustível, é obrigado a pousar à noite entre as montanhas do Tibete. Com o impacto da aterrisagem, o piloto acaba morrendo, mas os quatro passageiros sobrevivem e são conduzidos por um grupo de tibetanos ao mosteiro lamaísta de Shangri-La. Naquele lugar, não existe o mal, a vida cresce em amor e sabedoria, e as pessoas são longevas. Mesmo alheio ao conceito bíblico de que toda a criação precisa ser “redimida do cativeiro da corrupção” (Rm 8:21), esse romance expressa uma das mais profundas aspirações do ser humano – o anseio por um mundo melhor.

Em contraste com a utopia de Shangri-La, a esperança cristã de “novos céus e nova Terra” (2Pe 3:13) se fundamenta na Palavra de Deus. (Ap 21:1-4).

Mas o acesso ao novo céu e à nova Terra de perene felicidade passa pelo caminho da cruz (Mc 8:34); pois “somente pela graça imerecida de Cristo alguém pode ter entrada na cidade de Deus”.[2] Por isso, toda mensagem bíblica aponta para o Cristo crucificado, cujo sangue vertido na cruz no Calvário abriu um “novo e vivo caminho” de acesso a Deus (Hb 10:20), para todo o que nEle crê (Jo 3:16).

Preparo

Pela cruz, o pecador é libertado “do império das trevas” e transportado “para o reino do Filho do Seu amor” (Cl 1:13). Como cidadão do reino da graça, ele vive no mundo sem ser do mundo (Jo 17:15, 16), aguardando “uma pátria superior” (Hb 11:16). Seu maior prazer é viver “em Cristo” (2Co 5:17), tendo “a mente de Cristo” (1Co 2:16), e familiarizando-se nesta vida com os heróis de Deus que serão seus companheiros por toda eternidade. Aqueles que serão levados para o Céu “educam sua mente de modo a estar preparados para entoar os cânticos do Céu”.[3] Vivem tão familiarizados com a atmosfera celestial que o próprio Céu não lhes será um lugar estranho; pois os que “querem ser santos no Céu precisam ser primeiro santos na Terra”.[4]

Em Sua oração sacerdotal, Cristo orou: “Pai, a Minha vontade é que onde Eu estou, estejam também comigo os que Me deste” (Jo 17:24). Virá o glorioso e tão esperado dia em que Cristo despontará nas nuvens para a salvação eterna dos Seus filhos. Os justos mortos serão ressuscitados e se unirão aos justos vivos em um grande cortejo que ascenderá à nova Jerusalém. “A cidade de Deus abrirá suas portas de ouro para receber aquele que, enquanto na Terra, aprendeu a se apoiar em Deus quanto à direção e sabedoria, conforto e esperança, por entre perdas e aflições. Os cânticos dos anjos hão de festejar-lhe a entrada ali, e para ele dará seus frutos a árvore da vida.”[5]

Novo mundo

A filosofia grega gerou na cultura ocidental uma concepção dicotômica da realidade, contrastando a vida presente, neste mundo material e tangível, e a vida futura, no suposto mundo imaterial e etéreo das ideias. Para muitos, ainda hoje, a cruz de Cristo é “escândalo” e “loucura” (1Co 1:23); e um Céu literal, com um santuário literal, não passa de mera utopia. Em contraste com o pensamento grego, a Palavra de Deus descreve o novo Céu e a nova Terra de uma perspectiva tão real e concreta como o mundo em que vivemos, mas sem as limitações impostas pelo pecado. Ali, “nessas pacíficas planícies, ao lado daquelas correntes vivas, o povo de Deus, durante tanto tempo peregrino e errante, encontrará um lar”.[6]

Livres da maldição e da influência do pecado, os remidos viverão em um ambiente perfeito, onde flores não mais murcharão e animais não mais serão ferozes (Is 65:17- 25). Deus enxugará “toda lágrima” (Ap 21:4), e nunca mais se ouvirá na cidade de Deus “nem voz de choro nem de clamor” (Is 65:19). Ali “não haverá lembrança das coisas passadas” (Is 65:17), não no sentido de absoluta amnésia, mas de lembranças negativas que roubem a felicidade dos remidos. O cântico dos remidos traz à lembrança o juízo divino sobre “a grande meretriz que corrompia a Terra com sua prostituição” e a forma pela qual Deus “vingou o sangue dos Seus servos” (Ap 19:1-3).

No Céu, “os remidos conhecerão como são conhecidos.[7] Mesmo não se casando nem se dando “em casamento” (Mt 22:30), os vínculos familiares e de amizade não serão desfeitos. É-nos assegurado que, na manhã da ressurreição, criancinhas serão “levadas pelos santos anjos aos braços de suas mães” e “amigos há muito separados pela morte, reúnem-se, para nunca mais se separarem”.[8] Ali estarão reunidos os salvos de todas as épocas e todos os lugares.

No diálogo entre os remidos, surgirão expressões de gratidão àqueles que os conduziram a Cristo. Alguns dirão: “‘Eu era pecador, sem Deus e sem esperança no mundo; e você se aproximou de mim, e atraiu minha atenção para o precioso Salvador, como minha única esperança. E eu cri nEle. Arrependi-me de meus pecados, e foi-me dado assentar juntamente com Seus santos nos lugares celestiais em Cristo Jesus.’ Outros dirão: ‘Eu era pagão, em terras pagãs. Você deixou seu lar confortável e veio me ajudar a encontrar Jesus, e a crer nEle como o único Deus verdadeiro. Destruí meus ídolos e adorei a Deus, e agora O vejo face a face. Estou salvo, eternamente salvo, para ver perpetuamente Aquele a quem amo. Então eu O via apenas com os olhos da fé, mas agora vejo-O como Ele é. É-me dado agora expressar Àquele que me amou, e me lavou dos pecados em Seu sangue, minha gratidão por Sua redentora misericórdia.’”[9]

Então, “todo remido compreenderá a atuação dos anjos em sua própria vida. Que maravilha será entreter conversa com o anjo que foi o seu guardador desde os seus primeiros momentos, que lhe vigiou os passos e cobriu a cabeça no dia de perigo, que o protegeu no vale da sombra da morte, que assinalou seu lugar de repouso, que foi o primeiro a saudá-lo na manhã da ressurreição, e dele aprender a história da interposição divina na vida individual, e da cooperação celestial em toda a obra em favor da humanidade”.[10]

Nenhuma estrutura terrestre pode ser comparada ao santuário celestial (Hb 8:2; Ap 11:19), onde está o trono de Deus. É-nos dito que os salvos adorarão “diante do trono de Deus”, servindo-O “de dia e de noite no Seu santuário” (Ap 7:15; cf. Ap 21:22). Ellen White acrescenta: “Oh! Que felicidade desfrutaremos nós, reunidos em volta do trono, envoltos nas vestes brancas da justiça de Cristo. Não mais tristeza, não mais separação, e, sim, habitar em paz, habitar em felicidade, habitar em glória por todos os intermináveis séculos da eternidade!”[11]

Mas o supremo privilégio dos salvos será ver o próprio Deus face a face. O apóstolo João afirma que, “quando Deus Se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque haveremos de vê-Lo com Ele é” (1Jo 3:1-3); e que os servos de Deus “O servirão” e “contemplarão a Sua face” (Ap 22:3, 4). Cristo assegurou: “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus” (Mt 5:8).

Explorando o Universo

Os remidos de Deus terão o privilégio de explorar o infinito Universo. “Todos os tesouros do Universo estarão abertos ao estudo dos remidos de Deus. Livres da mortalidade, alçarão voo incansável para os mundos distantes – mundos que fremiram de tristeza ante o espetáculo da desgraça humana, e ressoaram com cânticos de alegria ao ouvir as novas de uma pessoa resgatada. Com indizível deleite os filhos da Terra entram de posse da alegria e sabedoria dos seres não caídos. Participam dos tesouros do saber e entendimento adquiridos durante séculos e séculos, na contemplação da obra de Deus. Com visão desanuviada olham para a glória da criação, achando-se sóis, estrelas e sistemas planetários, todos na sua indicada ordem, a circular em redor do trono da Divindade.”[12]

Os mistérios da vida serão estudados em maior profundidade. Mas o objeto supremo de estudo será o amor de Deus revelado no plano da salvação. “A cruz de Cristo será a ciência e cântico dos remidos por toda a eternidade… Jamais será esquecido que Aquele cujo poder criou e manteve os inumeráveis mundos através dos vastos domínios do espaço, o Amado de Deus, a Majestade do Céu, Aquele a quem querubins e resplendentes serafins se deleitavam em adorar – humilhou-Se para levantar o homem decaído; que Ele suportou a culpa e a ignomínia do pecado e a ocultação da face de Seu Pai, até que as misérias de um mundo perdido Lhe quebrantaram o coração e aniquilaram a vida na cruz do Calvário. O fato de o Criador de todos os mundos, o Árbitro de todos os destinos, deixar Sua glória e Se humilhar por amor do homem, despertará eternamente a admiração e a adoração do Universo.”[13]

Todas as evidências demonstram que “o grande conflito vai se aproximando do fim. Toda notícia de calamidade em terra ou mar é testemunho do fato de que está às portas o fim de todas as coisas. Guerras e rumores de guerra o declaram… Haverá um só cristão cuja pulsação não se acelere ao prever os acontecimentos que se iniciam perante nós? O Senhor vem. Ouvimos os passos de um Deus que Se aproxima!”.[14]

Referências:

1 James Hilton, Horizonte Perdido (Rio de Janeiro: Record, s/d).
2 Ellen G. White, Parábolas de Jesus, p. 394.
3 __________, Testemunhos Para a Igreja, v. 2, p. 265.
4 __________, Eventos Finais, p. 295.
5 __________, O Maior Discurso de Cristo, p. 100.
6 __________, O Grande Conflito, p. 675.
7 Ibid., p. 677.
8 Ibid., p. 645.
9 Ellen G. White, Testemunhos Para a Igreja, v.6, p. 311.
10  __________, Educação, p. 305.
11  __________, Este Dia com Deus (MM 1980), p. 331.
12  Ellen G. White, O Grande Conflito, p. 677, 678.
13  Ibid., p. 651.
14  Ellen G. White, Maranata O Senhor Vem! (MM 1977), p. 360.